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quarta-feira, setembro 17, 2014

tempos insanos

Estou sofrendo de um amor mal criado. Cresceu rebelde, sem minha autorizaçäo. Como uma grande ventania, espalhou todas as minhas certezas pelo chäo.

terça-feira, outubro 29, 2013

Parte de mim

Me perdi. Em alguma curva da vida deixei cair um pedaço genuíno de quem sou. Ou de quem era. Agora já não sei. Também não sei se tanto faz. Há um pedaço de mim perdido em algum lugar. Há um pedaço que não é meu dentro de mim. Talvez enquanto dormia acordada alguém fez a troca. Talvez na busca por mim mesma me perdi do que era mais real.

terça-feira, março 19, 2013

Voar, voar

Como um balão solto, perdido, arrastado pelo vento. Assim se vão meus pensamentos, meus sentimentos. Sem rumo, sem prumo. Um céu azul como fundo das mais longas divagações se abre para uma viagem sem destino. Sem saber onde ir, sem saber se vai chegar. Assim como o balão, tudo em algum momento vira um ponto colorido indefinido no infinito. E em breve já não há mais ninguém tentando descobrir onde ele vai parar.

domingo, janeiro 20, 2013

Fuga

Sempre que sentia tristeza, fazia as malas e partia. Ia embora sempre com a dor da despedida, mas acompanhado da alegre certeza de que as pessoas dão mais valor àqueles que se foram.

sábado, dezembro 22, 2012

Antes e depois do fim

Abriu lentamente a janela, com o receio de encontrar tudo o que não queria ver na primeira fresta de luz. E luz foi a primeira coisa que viu. Um céu azul e brilhante dava um espetáculo para todos que tiveram a coragem de olhar além das cortinas de ferro. Descobriu que não só havia pessoas abrindo as janelas, mas com outras já tinham tomado as ruas. Caminhavam sem mesmo perceber o milagre que ele parecia estar presenciando. A vida seguia seu rumo, buzinas, vozes, ranger de portas abrindo... O dia vinha anunciar que não só o fim do mundo não havia chegado, mas especialmente que a vida precisava ser celebrada. Decidiu que seria sim o fim, mas de toda coisa que o afastasse da coragem de viver a vida. Abriu mais ainda a janela e gritou. E gargalhou. E o mundo em que vivera até o momento chegava ao fim ali.

domingo, setembro 09, 2012

Onde foi que eu deixei

Começou com um buraco, um bem pequeno que mais parecia uma toca de rato. Depois vieram os outros. E foi-se embora a grama. E vieram abaixo as paredes. Pás, martelos, picaretas. Usou de tudo para cavar ainda mais fundo. Mas de nada adiantou. Não lembrava onde tinha enterrado seus sonhos.

domingo, setembro 02, 2012

21 dias

A solidão o aproximou daquilo que tinha de mais precioso na vida, suas verdades. Podiam ser verdades só suas, mas conseguiam tirar sua vida da inércia e fazer correr mais rápido o sangue em suas veias. Desligou o celular, cancelou a conta da internet. Ficou só consigo e com seus amigos mais íntimos, seus escritores preferidos, e com as lembranças de tudo que já vivera de mais lindo e poético. Foi como um período de desintoxicação. Após 21 dias acordou acreditando que ainda era possível fazer verso dos seus dias.

sexta-feira, agosto 24, 2012

Tão perto, tão longe

Acordou com um bilhete em sua mesa de cabeceira. Abriu os olhos e ali estava a folha branca, dobrada ao meio, com duas palavras escritas "para você". Não sabia como tinha ido parar ali. Sentou-se na cama, passou a mão pelos cabelos, tomou o papel nas mãos e abriu-o. Um parágrafo, no meio da página, dizia: "Já faz tempo desde a última vez que nos vimos. Mas ainda, quando fecho os olhos, vejo os seus, fixos em mim, como nunca alguém havia me olhado antes. E ainda sinto seu cheiro em todo lugar, carregado de lembranças só nossas. Já faz tempo, mas suas palavras de despedida ecoam na minha mente como um disco arranhado ou uma música na função repeat. Já faz tempo, mas parece que foi ontem. Já faz tempo, em outro lugar, numa língua qualquer, mas eu sinto como se tivesse sido agora, há dois minutos, em um idioma que só nós dois entendemos. Já faz tempo, mas mesmo longe encontrei um meio de dizer hoje. Já faz tempo, mas desaprendi a contar os dias. Já faz tempo, mas ainda há tempo. Estou te esperando lá fora. Não demore." Acabou, como sempre, com uma letra e um ponto final.

sábado, julho 21, 2012

Sobre o fim

Beijou suavemente seus lábios para que não despertasse do sono que o embalava. Sem uma palavra se despediu, guardando somente as doces lembranças no espaço mais terno da memória. Antes de fechar a porta, fez a promessa de não ficar triste pelo abandono. Optou por sentir, mesmo que apenas por um breve momento, a emoção do amor que dura uma vida inteira.

Alma de palhaço

Vestia terno e gravata, mas por baixa da cara de bom executivo morava mesmo o coração de um palhaço. Na última página da agenda corporativa rabiscava caretas engraçadas que via nos corredores cinzas do escritório. Carregava no bolso um apito, para que sempre que uma situação adversa roubasse o seu sorriso, ele pudesse sentir a forma que o faria rir de novo. Levava na alma a felicidade, mas trazia no rosto o semblante sério e distante que o mundo queria ver em um homem de negócios. Guardava na gaveta seu maior sonho, o nariz de palhaço. No fim, era o que ele queria ser de verdade.