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quinta-feira, maio 21, 2009

Adivinhações

É como acompanhar a nova temporada da sua série de TV favorita.
Você pode correr para a tela fria da internet e adiantar tudo o que vai acontecer. Pode ser mais sagaz.
Mas quanto vale aguardar pelo dia certo, toda semana, em que as emoções vão ganhar tela cheia e que você terá a sensação de estar vendo tudo em tempo real?
Quanto vale ser bobo para sofrer a angústia, a ansiedade, a expectativa da espera?
Assim é a vida. Podemos tentar antecipar todos os próximos dias, medindo passos e palavras, e estando preparados para tudo. Mas perdemos tempo agora, economizando a surpresa da veracidade das lágrimas e dos sorrisos.
Tentar prever nos faz mais espertos. E também mais chatos.

quinta-feira, maio 07, 2009

Foi-se

Foi-se sem deixar no chão nenhuma marca
Marcou apenas a impressão do impossível
Foi-se sem falar nenhuma palavra
Disse apenas em escritos
Foi-se sem dizer adeus
Anunciou apenas sua volta
Foi-se
Mas como ficou.

domingo, maio 03, 2009

Psicopatologia da vida cotidiana

Oito andares que levam à redenção, redução dos pecados, ampliação de perdões.
Escadarias que deveriam ser trilhadas de joelhos são substituídas pela rapidez e indolor subida de uma caixa metálica
Não há nada mais agoniante que os segundos que separam o chão do oitavo andar
Porque é o choro engasgado que quer sair
Porque é em oito segundos que as lembranças de oito dias, ou de muitos anos, passam correndo pela frente dos olhos, mas sem deixar que outras pessoas as vejam
Todas as dúvidas saem, sorrateiras, dos buracos onde se escondiam
Fazem caretas, riem-se
E as mãos que deveriam afagar sufocam a voz
Tentam suprimir a porção generosa de sentimentos que vem de dentro, do poço mais profundo
Inutilmente
Porque os diferentes tons de branco e azul vão capturar os olhos
Vão raptar toda atenção
E vão abrir toda a bagagem que veio posta nos ombros
É quando os oitos multiplicam-se
Por seis, por sete
Para acalentarem desalentos
Arrebatarem os arrependimentos
Arrefecerem as emoções
Deixe o cheque na mesa quando sair

terça-feira, abril 28, 2009

terça-feira, abril 21, 2009

segunda-feira, abril 13, 2009

Milagres

Deixei de acreditar em milagres depois que passei a levar a vida mais a sério e a acreditar que se consegue tudo erguendo a voz e impondo a opinião.
Não me estranha que não tenha me acontecido nenhum depois disso.
Só o coração os identifica.

domingo, abril 12, 2009

Paredes vazias

Conhecimento empilhado, empoeirado
Retido na memória, registrado em folhas finas de papel
Cada dia mais coisa a saber
Mais edições para ler
Noticiários para ver
Temas nacionais para debater
E do outro lado, cada vez mais
Vai ficando vazio
Um coração que vai sendo deixado de lado

Porque não tem estantes

domingo, março 29, 2009

Lucky

Até as estrelas abriram as cortinas para deixar entrar a melodia que na Terra embalava multidões. A noite deixou de ser negra para assumir cores. Assim, ela podia se misturar aos demais e dançar, dançar, dançar até cansar e poder se recostar ao longe, oferecendo seu colo e seu manto para apaziguar os ânimos de quem também já não tinha voz.

Não havia nada que não estivesse, nesse momento, conectado. Corações, mãos, olhares, ouvidos, vozes, tudo vibrava junto, eternizando para sempre um sentimento tão único e ao mesmo tempo tão compartilhado.

E, no fim, a chuva nem voltou. Já tinha tanta água escorrendo de olhos tão emocionados, que não era preciso molhar mais nada.

quinta-feira, março 12, 2009

O começo do fim

Da pena foram caindo as plumas e do tinteiro restaram apenas algumas gotas secas. O papel largado em cima da mesa, com duas ou três frases começadas e não acabadas denunciava o desprezo pelo pensamento que ali se prendia. A cabeça estava em outro lugar, ou seria o corpo todo que teria sido engolido pela página em branco?

domingo, março 01, 2009

Eterno desconforto

Eu nunca entendia se aquela excitação que eu sentia era comum ou era apenas uma reação exclusivamente minha àquele emaranhado de sons e imagens. Eu sentia que fazia parte deles, ou ao menos deveria fazer, e pensava que talvez fosse essa a explicação mais sensata para eu continuar achando que a minha vida andava a esmo, sem graça, movimentada apenas pela inércia de tudo à minha volta.
Eu queria sair, conhecer o mundo, ir além da geografia, para aqueles outros mundos em que existia cor e melodia e nos quais valia muito a pena trocar a noite pelo dia.
Eu ficava sentada, aqui e ali, sempre na ânsia de que alguém, percebendo meu desconforto e desvendando meus desejos, me levasse para onde eu realmente queria estar.