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sábado, novembro 01, 2008

A última folha em branco

Aquela angústia presa, afoita por liberdade, ganhou como única forma de expressão umas tantas folhas em branco e um lápis mal apontado. Por um instante, olhou praqueles pedaços de papel com o desprezo por um objeto que não tinha e não representava nada. Porém, aos poucos, foi percebendo que ali podia confiar seus maiores segredos, seus anseios, suas fraquezas, seus medos. Bastava dobrar e enfiar a prova no bolso e todo o resto estava seguro. Identificou-se, pela primeira vez, com os tais instrumentos "novos". Com eles e depois deles, tudo parecia ficar mais fácil. Aquela ferida dolorida, depois de exposta, ali, ficava tão pequenininha... As histórias que pareciam grandes não ocupavam mais do que cinco ou seis linhas. Mas chegou um dia em que se desesperou: restava apenas uma única e simples folha. Nada mais. Do lápis só restava um toco. E tinha ainda tantas histórias para contar... tanta coisa para dividir... A partir desse dia, passou a esperar pelas maiores coisas, para registar só aquilo que fosse realmente importante. E passou a viver mais, sempre na esperança de que o próximo momento fosse muito maior do que o que havia passado. E à medida em que cada um acabava, era só a expectativa que aumentava.

A última folha em branco continuava intacta, à espera.

sexta-feira, outubro 17, 2008

CV

Faço parte das poucas (e dos poucos) Suzinas nesse mundo. Além de mim, só minha mãe, minha irmã, um tio e mais três primos. E uma colina na Croácia. Nasci e cresci numa cidade do Paraná que parecia grande, mas tinha jeito de cidade bem pequena: Ponta Grossa. Trabalhei desde os 10 anos nos movimentos da igreja perto da minha casa, onde descobri minha paixão por gente, por conquistar públicos, por organizar eventos e planejar atividades. Desde os 11 já sabia que queria fazer Comunicação. Antes disso, queria mesmo era ser carteira. Troquei muitas correspondências com amigos, uma caixa cheia delas. Aos 18, mudei com minha família para Curitiba, para minha primeira jornada de trabalho durante o dia e estudo durante a noite. Estudei sempre em escola pública e tenho saudades dos corredores do colégio, das cantinas e das carteiras grandes de madeira. Prestei vestibular durante 4 anos. Tentei outros cursos antes de me decidir oficialmente pelas Relações Públicas: Jornalismo, Design Gráfico, Publicidade... Prestei Metodista de São Paulo por acaso, sem intenção nenhuma de largar casa-mãe-emprego. Passei e ganhei uma bolsa de estudos irrecusável. Mudei de novo, para morar com minha irmã. Um mês depois da minha chegada ela voltou pro Paraná. E aí fiquei sozinha. Trabalhei em agência de publicidade, em clínica de ortodontia, em ong, em petroquímica. Fiz freela quando fiquei desempregada, em assessoria de imprensa e em agência de eventos, sendo a mocinha que abria portas num Congresso. Neste último, ganhei em quatro dias o que ganharia em um mês. Trabalhei voluntariamente tentando fazer assessoria de imprensa para uma banda. Gosto de música. E de cinema. E de literatura. Tenho um blog. Acho meus textos piegas, mas publico. Adoro a cultura da América Latina. Amo a Argentina e o Rio Grande do Sul. Gosto de frio com céu azul. De comer fandangos com danoninho. Cheirar o pó de café me traz uma sensação boa. Adoro bolo de cenoura, arroz com feijão preto e lingüiça frita. O som que mais ouço é rock, o escritor que mais leio é Luis Fernando Verissimo e vou ao cinema para ver filmes alternativos. A pessoa de quem sinto mais saudade é meu pai. Coleciono patos. Quero fazer um curso de Economia. Tenho planos de conhecer Londres, Santiago do Chile, Dublin e Córdoba. Adoro cachorros e a minha é Bela. Não sei dirigir. Estou aprendendo a nadar. Tenho taquicardia e enxaqueca, mas preciso mesmo é cuidar da prolixidade. Quando começo a escrever, fica difícil parar.

terça-feira, outubro 14, 2008

Uma noite daquelas

Hoje tá uma noite daquelas... Daquelas em que você quer ficar pela rua, andando, bebendo, cantando, vendo gente e arrumando pretexto para ficar sempre mais. Daquelas noites que te fazem até acreditar que o mundo é perfeito e todas as pessoas são felizes. Quem me dera... A lua tá lá, redonda, majestosa, imponente, esbanjando sedução. E nada desse papo piegas, que tá com ar de enamorada e coisa e tal. Se ela tivesse olhos, eles, hoje, nesta noite, estariam cheios de malícia. Convidando pra esticar mais um pouquinho e dando mais uma razão para não voltar pra casa tão cedo.
Hoje tá uma noite daquelas de cidade de interior, que mesmo bem tarde da noite ainda tem gente sentada no banco da praça, de papo.
Tá uma noite daquelas de sentir saudade das boas companhias. Dos bons amigos. Daquelas em que você liga pra convidar alguém para dividir o banco da praça. Ou vai na casa da pessoa mesmo. Uma noite daquelas de querer levar a cama pra fora, deitar sob o céu estrelado e adormecer entorpecido com o ar da madrugada.
Hoje tá uma daquelas noites em que é bom ter alguém do lado, pra comentar da brisa, do vento nos cabelos, da sensação de arrepio, de olhar bem fundo nos olhos e deixar que deles saiam as palavras. Uma daquelas noites que depois viram livros.
Hoje tá uma daquelas noites que a gente quer que não termine.

domingo, outubro 12, 2008

Leva e traz

Porque tem aqueles dias em que você se sente um tolo e a saudade aperta e vai trazendo com ela todas as lembranças que, pelo menos agora, você está tentando esquecer. Voltam todas as imagens e todas as sensações. E você fica ali, parado, como se tivesse esquecido o caminho que tem que seguir para chegar no seu destino. Na verdade, você começa a questionar o próprio destino. Era para lá mesmo que você queria ir? Quanta coisa muda no meio do percurso. Algumas coisas que levamos a gente descobre que é tralha velha, aquelas às quais nos apegamos, mas que só nos fazem sentir mais cansaço. E tem aquelas outras tantas, que descobrimos que, por mais que se queira deixá-las para trás, estão muito bem amarradas na nossa história e que vão deixar marcas em nosso rastro. A mala da viagem não é muito grande, por isso nem sempre o que queremos levar cabe lá dentro. E, mesmo que caiba, é preciso deixar um espaço vazio, para preencher com o que de bom encontrarmos no caminho. Fazendo trocas, vamos mantendo o peso adequado para não desistir da jornada. A dor do abandono às vezes é maior do que o prazer de agregar o desconhecido. E vamos andando, nesse eterno jogo de perder e ganhar, deixar e levar, sorrir e chorar até que descobrimos que algumas coisas que tivemos que largar em algum pedaço da estrada, e que achamos que não seriam mais recuperadas, ficaram bem guardadas, dentro do nosso coração. Aquilo que realmente importa não pesa.

segunda-feira, setembro 29, 2008

Umbigos

Todo mundo tem um umbigo. Ou pelo menos deveria ter. Desconfie de quem não tem um. E por ser esse o primeiro elo que nos conecta a outra pessoa, a primeira via de comunicação, a fonte de alimentação por tanto tempo, os seres humanos vêm ao mundo imaginando que todo o resto que vão viver está relacionado ao seu próprio centro do corpo.

Alguns assimilam muito rápido a idéia de que "a vida não é assim, meu camarada, o seu umbigo concorre com o meu, portanto vamos encontrar meios mais igualitários de nos relacionarmos". Porém, uns outros tantos carregam por anos, e até por toda a vida, a impressão egocêntrica de que tudo se conecta a este pequenino e misterioso meio de tudo.

O mistério do umbigo é algo que deveria ser estudado em profundidade, literalmente ou não. Todo mundo já foi um curioso, metendo o dedo lá dentro pra ver se chega do outro lado ou se encontra algo perdido. Alguns ainda são. E talvez seja por esse questionamento de "o que há dentro de cada umbigo?" que muitos se perguntem se tudo o que acontece ao seu redor não seria resposta para essa pergunta.

Cada um tem um umbigo e todos eles devem conviver bem. Porque cada um é um mundo e no centro de cada mundo tem um umbigo e há muito (no) umbigo nesse mundo para se conhecer.

sábado, setembro 27, 2008

Mãos

Andando pela calçada, com as mãos espalmadas, pode-se oferecê-las a qualquer um que passe e precise delas.

O velho que atravessa a rua.
O mendingo que pede pão.
O transeunte perdido.
O grupo que festeja.
O trabalhador que corre.
O estudante que derruba os livros.
O pedestre que faz sinal para o ônibus.
O amigo que chora.
Aquele que precisa de um abraço.
Aquele que precisa de força.
Aquele que precisa de confiança.
Aquele que precisa de companhia.

Com as mãos livres é possível levar todo o mundo.

domingo, setembro 14, 2008

Desconhecer

Às vezes parece que a única solução é uma mala vazia e um bilhete com destino a qualquer lugar. Fugir sempre é a primeira opção. Mesmo que se deixe pra trás um pedaço do que se é e mais um monte de gente que te compõe. Não interessa quantos feridos vão ficar desde que o seu pobre e surrado coração sobreviva. Respirar novos ares é um método terapêutico recomendado para quem não sabe onde quer chegar, quem quer levar, nem que caminho seguir. O novo sempre traz a ilusão de que é possível começar do zero, sem perceber que o começo já está feito e quanto mais andamos mais distante ele fica de qualquer transformação. Nunca é tarde para mudar, dizem por aí, mas o que seria mais correto dizer é que sempre é tempo para se adaptar. Porque encontraremos em todos os lugares coisas e pessoas que servirão como inspiração para extrair de nós o que de melhor temos e também o que de pior escondemos, porque o que encobre tudo é o desconhecido. Todo estranho pode ser uma boa pessoa até que você o conheça. E você poderá amar tantas quantas pessoas disserem para você que são adoráveis, se você não se dispor a conhecê-las. O limite é sempre o contato inicial.

sábado, agosto 30, 2008

Dinâmica da paixão

O ridículo de estar apaixonado envolve a vergonha freqüente de acreditar em tudo o que não existe.
Uma bela cara pintada esconde as cicatrizes e os sinais de um rosto bandido.
Meia dúzia de palavras bonitas, bem amarradas, revelam o cinismo com que se pretende ganhar algo.
Enquanto um coração se ilude
O outro explode de euforia, impune
Diante do crime de fazer-se amante
Sem nenhuma intenção de amar.

terça-feira, agosto 12, 2008

Fitness Cerebral

Fui e voltei e não te vi
É possível, te perdi
Ou será que te esqueci
E nem mesmo te reconheci?
Mais um, no meio de tantos
Em outros vejo encantos
Ah, já se foram os prantos...
E as rimas, que sinas!
Ficaram perdidas pelas esquinas...
Pra memória fraca... hummm
Recomendo tomar vitaminas!