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domingo, outubro 12, 2008

Leva e traz

Porque tem aqueles dias em que você se sente um tolo e a saudade aperta e vai trazendo com ela todas as lembranças que, pelo menos agora, você está tentando esquecer. Voltam todas as imagens e todas as sensações. E você fica ali, parado, como se tivesse esquecido o caminho que tem que seguir para chegar no seu destino. Na verdade, você começa a questionar o próprio destino. Era para lá mesmo que você queria ir? Quanta coisa muda no meio do percurso. Algumas coisas que levamos a gente descobre que é tralha velha, aquelas às quais nos apegamos, mas que só nos fazem sentir mais cansaço. E tem aquelas outras tantas, que descobrimos que, por mais que se queira deixá-las para trás, estão muito bem amarradas na nossa história e que vão deixar marcas em nosso rastro. A mala da viagem não é muito grande, por isso nem sempre o que queremos levar cabe lá dentro. E, mesmo que caiba, é preciso deixar um espaço vazio, para preencher com o que de bom encontrarmos no caminho. Fazendo trocas, vamos mantendo o peso adequado para não desistir da jornada. A dor do abandono às vezes é maior do que o prazer de agregar o desconhecido. E vamos andando, nesse eterno jogo de perder e ganhar, deixar e levar, sorrir e chorar até que descobrimos que algumas coisas que tivemos que largar em algum pedaço da estrada, e que achamos que não seriam mais recuperadas, ficaram bem guardadas, dentro do nosso coração. Aquilo que realmente importa não pesa.

segunda-feira, setembro 29, 2008

Umbigos

Todo mundo tem um umbigo. Ou pelo menos deveria ter. Desconfie de quem não tem um. E por ser esse o primeiro elo que nos conecta a outra pessoa, a primeira via de comunicação, a fonte de alimentação por tanto tempo, os seres humanos vêm ao mundo imaginando que todo o resto que vão viver está relacionado ao seu próprio centro do corpo.

Alguns assimilam muito rápido a idéia de que "a vida não é assim, meu camarada, o seu umbigo concorre com o meu, portanto vamos encontrar meios mais igualitários de nos relacionarmos". Porém, uns outros tantos carregam por anos, e até por toda a vida, a impressão egocêntrica de que tudo se conecta a este pequenino e misterioso meio de tudo.

O mistério do umbigo é algo que deveria ser estudado em profundidade, literalmente ou não. Todo mundo já foi um curioso, metendo o dedo lá dentro pra ver se chega do outro lado ou se encontra algo perdido. Alguns ainda são. E talvez seja por esse questionamento de "o que há dentro de cada umbigo?" que muitos se perguntem se tudo o que acontece ao seu redor não seria resposta para essa pergunta.

Cada um tem um umbigo e todos eles devem conviver bem. Porque cada um é um mundo e no centro de cada mundo tem um umbigo e há muito (no) umbigo nesse mundo para se conhecer.

sábado, setembro 27, 2008

Mãos

Andando pela calçada, com as mãos espalmadas, pode-se oferecê-las a qualquer um que passe e precise delas.

O velho que atravessa a rua.
O mendingo que pede pão.
O transeunte perdido.
O grupo que festeja.
O trabalhador que corre.
O estudante que derruba os livros.
O pedestre que faz sinal para o ônibus.
O amigo que chora.
Aquele que precisa de um abraço.
Aquele que precisa de força.
Aquele que precisa de confiança.
Aquele que precisa de companhia.

Com as mãos livres é possível levar todo o mundo.

domingo, setembro 14, 2008

Desconhecer

Às vezes parece que a única solução é uma mala vazia e um bilhete com destino a qualquer lugar. Fugir sempre é a primeira opção. Mesmo que se deixe pra trás um pedaço do que se é e mais um monte de gente que te compõe. Não interessa quantos feridos vão ficar desde que o seu pobre e surrado coração sobreviva. Respirar novos ares é um método terapêutico recomendado para quem não sabe onde quer chegar, quem quer levar, nem que caminho seguir. O novo sempre traz a ilusão de que é possível começar do zero, sem perceber que o começo já está feito e quanto mais andamos mais distante ele fica de qualquer transformação. Nunca é tarde para mudar, dizem por aí, mas o que seria mais correto dizer é que sempre é tempo para se adaptar. Porque encontraremos em todos os lugares coisas e pessoas que servirão como inspiração para extrair de nós o que de melhor temos e também o que de pior escondemos, porque o que encobre tudo é o desconhecido. Todo estranho pode ser uma boa pessoa até que você o conheça. E você poderá amar tantas quantas pessoas disserem para você que são adoráveis, se você não se dispor a conhecê-las. O limite é sempre o contato inicial.

sábado, agosto 30, 2008

Dinâmica da paixão

O ridículo de estar apaixonado envolve a vergonha freqüente de acreditar em tudo o que não existe.
Uma bela cara pintada esconde as cicatrizes e os sinais de um rosto bandido.
Meia dúzia de palavras bonitas, bem amarradas, revelam o cinismo com que se pretende ganhar algo.
Enquanto um coração se ilude
O outro explode de euforia, impune
Diante do crime de fazer-se amante
Sem nenhuma intenção de amar.

terça-feira, agosto 12, 2008

Fitness Cerebral

Fui e voltei e não te vi
É possível, te perdi
Ou será que te esqueci
E nem mesmo te reconheci?
Mais um, no meio de tantos
Em outros vejo encantos
Ah, já se foram os prantos...
E as rimas, que sinas!
Ficaram perdidas pelas esquinas...
Pra memória fraca... hummm
Recomendo tomar vitaminas!

domingo, julho 27, 2008

Conjugação

Eu não falo
Tu não falas
Ele não sabe
Nós não contamos
Vós não sabeis
Eles não entendem

Eu não dou o braço a torcer
Tu não arriscas
Ele não sabe
Nós nos perdemos
Vós só assistis
Eles continuam não entendendo

sexta-feira, julho 11, 2008

Me perdi

Cansei. Nem tenho muito o que falar, o cansaço engoliu minhas palavras. Fico andando entre as pessoas, nas calçadas e nas ruas, e lembrando de tanta coisa, de tanta gente. Não dá pra reunir cada coisa em tentativas exclusivas de um texto filosófico. A filosofia está se esgotando. Na mesma medida em que a areia da ampulheta corre e deixa vazio o espaço que ocupava e que vai ficando pra trás. Tenho procurado coisas que não sei onde estão e nem sei o que são. Repudio a mão que me oferece ajuda com a mesma intensidade em que desejo que ela me dê força para levantar. Ou pouca, ou muita. Tem dias em que o riso chega fácil e resiste e não vai embora. Agora tem uns outros em que ele escapa pela borda dos lábios e corre furtivo pelos cantos e beiradas de qualquer lugar. Sem avisar. E tem muito mais coisas que se perdem. Objetos pela casa. Lembranças antigas. Mapas de como chegar. E, em toda mudança, a gente também deixa para trás um porto seguro. Um amigo, um médico, um dentista, ruas conhecidas, rostos familiares, um nome, um gesto, um abraço, um bem estar. Tudo isso pra, quem sabe, achar outra coisa pra pôr no lugar. Somos, definitivamente, seres muito estranhos.

sábado, julho 05, 2008

Onde está o novo

Risco com a ponta do lápis a folha em branco na espera de que alguma boa idéia apareça. Não sei o fantasma de quem as afastou de mim. Agora, um vazio surdo e escuro toma conta do espaço donde tantas cores já brilharam.

É noite, não tem luz. Tateio para reconhecer algo que me ponha em paz novamente, que firme meus pés com a segurança de poder caminhar.

E se me adianto e ainda acredito é porque sei que há algo adormecido esperando apenas o dia amanhecer para nascer. De novo, o novo.