Translate

domingo, janeiro 13, 2008

Sinais de vida

Coração prisioneiro nas mãos de um gigante
Pequenino
Pulsa devagar
Para que o monstro não sinta
E, percebendo que ainda está vivo,
Aperte com força até parar.

domingo, janeiro 06, 2008

Desilusões

Há sempre um pouco, ou muito, de ilusão no que é sonho. São sempre apostas, que tanto podem se transformar em alegres realidades ou desalentadoras lembranças.

Quanto mais se investe, maior o risco. E nem é preciso tanto esforço para colocar muitos créditos naquilo que imaginamos que queremos, seremos ou teremos... A capacidade de imaginar nos deixa sempre à mercê do imprevísivel.

Às vezes, meia dúzia de palavras matam a esperança. Destroem construções, liquifazem em lágrimas projeções. Às vezes, nem tantas.

sábado, janeiro 05, 2008

Para quem na ausência me acompanha

Nesta tua falta sobra tanta ausência que eu me pergunto até onde vai a saudade e o quanto disso tudo é apenas costume.

Nas palavras que uso e só você entende, nas caretas que faço e te divertem e nas lembranças que vêm e voltam a todo momento sinto que você passou a fazer muito mais parte da minha vida do que eu supunha.

Penso que não adianta suprimir o que sinto e tentar evitar que isto aconteça. Já sei e posso prever que novas cicatrizes virão. Concluo, enfim, que se tudo é tão breve e passageiro, não faz sentido que coisa alguma, ainda mais quando faz bem, seja impedida de ser o que deve ser.

quarta-feira, janeiro 02, 2008

Metades de mim

Sou metade sol, metade lua. Parte de mim é fogo e outra parte é água. Um pouco de fel e um pouco de mel, um lado de bondade e outro de pleno veneno. Sou palavra e sou silêncio, sou céu e sou chão. Sou riso e sou pranto, sou imagem sem som e sou canto.

Sou duas e cada uma anda só, porque não conseguem existir na presença da outra. Andam sozinhas porque mesmo juntas estão solitárias. Não se dão as mãos porque ambas oferecem a palma para cima. Não conversam porque não se entendem, não se olham porque não se aceitam.

Perderam a vida assim, duelando silenciosamente. Fingindo que a outra não existia, ignorando o que a outra sentia e desprezando o que a outra fazia.

E no dia em que tentarem se encontrar, nada mais poderá ser feito. Não há de existir nenhuma ponte que as ligue, o abismo vai ser tão grande que só poderão ouvir o eco de sua própria voz chamando.

terça-feira, janeiro 01, 2008

Liberte-se

Faça com que seus dias sejam diferentes. Invente uma coisa nova para fazer em cada um deles. Ouse arriscar. Coloque aquela cor de blusa que você não tem coragem. Ou o chapéu que você acha que fará as pessoas rirem de você. Que riam. Melhor fazer as pessoas felizes do que tristes. Saia sozinho para um passeio onde vai haver muita gente e conheça novas pessoas, faça novos amigos. Converse com pessoas nos pontos de ônibus. No elevador. No mercado, peça ajuda para escolher uma fruta para quem está na mesma banca que você, apenas pelo prazer de puxar conversa. Fale com o porteiro, com o cobrador do ônibus, com o garçom. Pergunte como vai a vida e ouça, atentamente. Faça coisas que geralmente você não faz porque alguém pode te achar idiota se o vir fazendo. Corra para não perder o ônibus, lamba os dedos, ria alto, tire fotos com as réplicas em papelão de personagens nos cinemas, use listras e bolinhas simultaneamente. Não encha sua agenda apenas de coisas sérias, mesmo que isso te faça dormir um pouco menos do que gostaria. Reserve muito tempo para seus amigos. Não fure compromissos com eles por sono ou cansaço. Mande cartões de aniversário. Por correio. Ande de bicicleta, faça passeios a pé. Ande por ruas desconhecidas, se deixe perder em algum lugar. Conheça lugares diferentes. Se não der para ser cidades novas, que sejam novos botecos, novas praças, novos cinemas, novos mercados. Brinque de amarelinha. De esconde-esconde. De brincadeiras de criança.

Está em nossas mãos fazer cada dia deste ano melhor do que qualquer outro que já vivemos. Liberte-se dos pré-conceitos, dos idealismos, dos cabrestos e ouse. Ouse sempre mais.

Um 2008 usado de tão ousado para todos nós.

sábado, dezembro 29, 2007

Aos bons amigos, por 2007

Um ano tem 365 dias (ou 366, em alguns) em branco, a serem preenchidos com todo tipo de imagem, de som, de cheiro, de situação, de gente, de lugar...São 365 novas páginas que podem ser escritas pedaço a pedaço, dia após dia. E não importa se faz sentido com o que escrevemos ontem, desde que o propósito seja, no fim, ter uma obra repleta de recordações boas, que nos faça sorrir de novo, como na primeira vez. E repleta também de aprendizados, de histórias para contar, de coisas que não podem mais ser feitas, que sabemos que não podem mais ser feitas.

Cada página é escrita pelo dono de cada história, ou seja, cada um de nós. Porém, ela só é completa e só acontece, com a ajuda de outros escritores, que são muito além de leitores e coadjuvantes de nossos contos. São co-autores.

As folhas em branco não são só preenchidas com palavras, mas também com cores, com imagens. Vão além: podem ter música, podem ter sentimento, podem ter cheiro. Enfim, nosso grande livro da vida pode ser do jeito que a gente quiser, quando a gente quiser... Basta só tomar a caneta para se criar...

2007 foi um livro cheio de páginas coloridas, com cheiro de terra molhada e de café, de São Paulo amanhecida. Teve o embalo dos bons rocks e dos sons de dedos rápidos nos teclados e de carros passando. Também teve gente cantando, brincando, correndo. Foi um ano cheio de páginas sérias, mas que são muito necessárias e bem-vindas para construir novos rumos, planos e sonhos.

Foi uma história de gente. De muita gente. De gente que chegou e que se foi, de gente que estava e quis ir, de gente que já estava e continuou e de gente que chegou e quis ficar. Foi com a cor de suas canetas que pintei a minha vida e decorei a minha história neste ano.

Sem eles, meu livro seria só um punhado de páginas em branco ou de monólogos sem graça. Que Deus permita que possamos todo ano celebrar histórias inesquecíveis, as minhas e as suas!

Escolhas

Levei tanto tempo pra entender
Demorou muito para sarar
Agora que tenho o controle
Quem você pensa que é para me fazer voltar atrás?
Não são tuas palavras bonitas
Nem teus cortejos programados
E nem mesmo toda sua beleza há de me fazer abandonar
Minha liberdade
Meus dias de primavera
Meu boteco com amigos
Meu sono tranqüilo
Meus olhos sem lágrimas
Enfim, não há nada que eu queira abandonar.

Nada.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Revisitando a dor

Curiosa, quis saber se ali ainda podia encontrar vida. E num movimento sem cálculos nem medidas, abriu os braços para o golpe certeiro. E o sangue correu e as lágrimas rolaram.

A dor foi tão intensa quanto da primeira vez. O pulso latejava, com a cabeça girando, tentando entender por que, se já conhecia o fim, permitira a agressão.

Sentir com cada centímetro do corpo, voltar a ter sensações. Talvez isso justificasse. Talvez não.

Chuva

Quis tanto não chorar que choveu. Torrencialmente.

E cada gota da chuva que caía batia no chão com a intensidade que o coração sentia. Cimento não sente dor. E foi assim que descobriu que não era feita de pedra.

A chuva ainda não parou.

sábado, dezembro 15, 2007

O fim do ser e do estar

Como pode alguém ocupar tanto espaço na vida de outra pessoa, mesmo que pareça não existir?

Olho pra casa vazia que ecoa todo som, toda voz e vejo que não são somente os móveis que foram embora. Foi toda a presença de uma vida partilhada. Foram os risos, o arrastar de chinelos, a batida das portas, a cantoria no chuveiro, o cheiro de comida ficando pronta.

Foi tudo isso e foram todos os detalhes desta relação que deixaram este lugar vazio, com seu piso frio, com suas paredes sem cor.

As janelas permanecem cumprindo seu dever de espiãs, de dentro pra fora, de fora pra dentro. Elas, que outrora foram testemunhas de dias felizes, hoje choram, em luto pelo sentimento que se foi...

O fim é um capítulo filmado numa sala branca e vazia.