Porque cada pessoa é um mundo, e tem muito mundo nesse mundo pra conhecer
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segunda-feira, maio 21, 2007
sábado, maio 19, 2007
Viagens partilhadas
O corredor escuro não permite olhar a paisagem. Pode-se dormir. Pode-se ler. Pode-se brincar com os dedos ou as pontas do cabelo. Mas o melhor e o mais intrigante é olhar. Olhar a multidão de gente que divide a mesma viagem, que muda a cada estação, que entra, que sai. Gente que conta um pouco de sua história pelo pouco que leva no corpo e nos braços, em roupas e bagagens. Histórias contadas em alta voz são partilhadas com estranhos, companheiros nunca vistos. Tornam-se nossas, as levamos conosco.
Vozes que se ouvem.
Olhares que se encontram.
Mãos que se tocam.
Caminhos que se unem.
Pessoas que vem e que vão, todo dia, dia todo.
domingo, maio 13, 2007
Sobre mães e filhos
É lógico que elas amam, porque muitas vezes é uma das raras oportunidades de ver a família reunida almoçando. Filhos, netos, noras, genros, sobrinhos, marido, irmãos. Uma lista enorme de pessoas que só se encontram em datas marcadas em vermelho no calendário em cima da mesa: natal, páscoa, dia das mães.
Mas e nos outros dias? O que acontece? A sina dos dias solitários, esquecidos, abandonados? Ou a de ouvir o filho batendo a porta contrariado, o marido reclamando da comida e a nora dizendo que sogra é um presente de grego que se ganha no dia do casamento?
Família começa na mãe. Digam o que disserem, mas a verdade é esta. Só existe família a partir de uma mãe. Além de ser ela a carregar o fruto da união, a junção de características, personalidade e jeito de dois seres que se amam, é ela que mantém todos reunidos, juntos. A mãe suporta tudo pela felicidade de ver a família reunida, nem que seja por cinco minutos.
Dia das mães todo mundo lembra da dor do parto, das puxadas de orelha, dos castigos, dos ensinamentos, tudo como se fosse uma coisa bonita, fim de novela. Mas no dia-a-dia o reconhecimento, a paciência, o respeito ficam pro segundo plano.
Dia das mães pra mim é igual a tantos outros dias do ano: sinto falta da minha mãe, do cheiro dela, da risada dela, do carinho dela, da preocupação dela e dela, todinha, aqui perto de mim. E não é porque é dia das mães. É porque estar longe e ser gente grande sozinha, num mundo distante de casa me fez perceber a importância de ser mulher forte, sem perder a sensibilidade. De falar grosso pra corrigir um erro mesmo quando o coração se parte em dez por isso. É ter que escolher entre diversão e compromisso e ter que optar pelo segundo porque a responsabilidade fala mais alto. É ter que sorrir e comemorar em alguns momentos, mesmo tendo lá dentro um coração que chora agoniado de saudade, causada pela ausência de alguém. É olhar pro saldo bancário e ter que escolher pagar a conta ou comprar a roupa nova bonita.
Compreendo assim muita coisa que minha mãe passou pra eu poder chegar onde cheguei. E sei o quanto sofre e sofreu a dor da ausência, tanto quanto eu. E que ela dá tudo dela para ver a gente juntas e felizes, as três, mulheres fortes e sensíveis.
A ela todo o meu amor, dedicação, reconhecimento e acima de tudo, compreensão. Não só hoje, mas em todos os dias. Porque a data especial dela em minha vida é todo dia.
sexta-feira, maio 11, 2007
quinta-feira, maio 10, 2007
Seleção não tão natural
Passo a Passo
- Marque o horário de almoço para realizar a dinâmica de grupo.
- Avise antecipadamente aos candidatos que haverá um lanche para o almoço.
- Espere todos chegarem, se acomodarem e lhes ofereça uma coxinha grande, quentinha, cheirosa e suculenta.
Observe-os comendo e pondere:

- Os que pedirem garfo e faca para a coxinha: possivelmente burocratizam os processos com instrumentos e procedimentos desnecessários para alcançar o objetivo final;
- Os que começarem a comer a coxinha pela parte do recheio: possivelmente não sabem esperar para obter a parte prazerosa, querem resultados imediatos, mesmo que sobre só massa no final;
- Os que comerem toda massa e deixarem o recheio para o final: possivelmente não sabem como fazer as partes envolvidas interagirem nem aproveitar ambas para o sucesso comum e simultâneo;
- Os que não comerem a massa: possivelmente pensam que são superiores e tem direito somente às melhores partes e tarefas, não vão realizar ações operacionais;
- Os que não comerem o recheio: possivelmente trata-se de candidato vegetariano (conferir), caso contrário, tem baixa auto-estima e sentimento de inferioridade aflorado;
- Os que não comerem a coxinha: difícil. Ou o cara tem uma causa muito profunda ou trata-se do tipo caso de frescura com estética e visual. Só vai se preocupar com imagem.
Essa idéia vai ser um sucesso. Vou patentear.
terça-feira, maio 08, 2007
Ela, ele e o silêncio
Ela mantinha os olhos voltados para o chão, entretidos em ver seus pés dançando sem fazer barulho, em movimento para cima e para baixo, da esquerda para a direita. Os sapatos vermelhos, com uma pequena fita entrelaçada à frente, pareciam divertidos olhados assim, dessa maneira.
Ele, com as mãos apoiadas no banco, como num sinal de quem ia levantar abruptamente, olhava para a rua, como quem espera por algo ou alguém. Seu olhar não se movia, estava fixo, parado, perdido em algum ponto da movimentada avenida ali adiante.
Já era madrugada, mas mesmo assim muitas pessoas caminhavam pelas calçadas. Logo ali ao lado, um grupo de cachorros corria de um lado a outro, como numa brincadeira de pega-pega.
Num gesto delicado, ele tirou uma das mãos do banco e buscou a dela. Os dois se olharam e ele quis falar e não conseguiu. Tentou novamente, mas de sua boca não saía nenhum som. Apenas os lábios moviam em movimentos nervosos como se percebessem sua solidão sem as palavras. Ela, buscando aliviar seu sofrimento, tentou balbuciar alguma frase carinhosa, mas percebeu que também não conseguia.
Já que as palavras os separavam, estavam condenados ao silêncio, que eternizaria sua união.
quinta-feira, maio 03, 2007
Excessos
Ter quatro olhos tiraria o foco.
Mais de dois ouvidos me distrairia.
Quatro braços me enroscariam.
Dois corações me matariam.
quinta-feira, abril 19, 2007
Os sonhos pensados
Foi tirando seu conteúdo, um a um, olhando para todos como se fosse a primeira vez que os visse e tentando descobrir em cada um a sua razão de existir.
Percebeu que alguns estavam amarelados, outros o tempo tinha dado conta de apagar boa parte de seu histórico e uns tantos possuíam buracos feitos por pequenas traças.
Ficou pensando que a máquina que produzira todo esse material tinha que ser melhor utilizada, para não ficar gerando arquivos que só consomem espaço, mas que depois são esquecidos, abandonados, colocados de lado.
Picou, rasgou e jogou fora tudo aquilo que considerou inútil. Não guardou registro nem das belas ilustrações que alguns possuíam, nem dos versos mais poéticos e nem dos sons encantadores.
E a partir desse dia, deixou a razão controlar a máquina de fazer sonhos. E a máquina começou a render mais. Mas já não fazia desenhos coloridos. Nem poemas. E nem música.
E embaixo da cama ficou só o piso frio e vazio.
quarta-feira, abril 11, 2007
Gramde alguém
Eu fujo, me escondo e corro, na tentativa de esquecer a tua imagem. Ocupo meus dias com o trabalho e as tarefas do lar só pra ver se isso me entretém e afasta meu pensamento pra longe de você.
Mas tua presença é como a sombra do corpo, não desaparece, não some e mesmo na escuridão qualquer ponto de luz a revela.
De onde vem tanto sentimento? O que é que pode ser mais forte?
Basta um segundo com você para sentir a mesma emoção do primeiro encontro. O som que vem de ti me envolve num abraço quente, e eu volto a sentir conforto, acalento e sossego.
Quanto tempo ainda falta para eu te ver? O tempo que fico longe são como as noites infinitas dos contos árabes.
Com tuas palavras conheci um mundo novo, com o qual me identifico. Foi com elas que descobri em mim uma fonte insaciável de sentir, de escrever e de ser.
E tudo pode acabar amanhã, de uma maneira tão rápida quanto nasceu. É provável e inevitável. Mas para sempre vou levar tuas notas, teus tons, teus sons, como lembrança do divisor de águas em minha vida.
sábado, março 31, 2007
Rotações
Assim também é com a gente: é preciso que a vida dê muitas voltas para conhecermos todos os lados, todas as faces de uma pessoa.
Podemos dizer que conhecemos bem alguém quando já a vimos chorar de tristeza e por amor, rir de alegria e de nervoso, gritar de emoção e de medo. Quando ela já contou algum segredo, quando não escondeu uma cara brava e nem evitou um pedido de desculpas.
Cada um reage de uma forma frente às situações da vida. E a gente vai se descobrindo, a cada dia, a cada nova experiência, e se deixando descobrir também. Somos cheios de facetas, temos várias maneiras de agir.
Descobrimos assim, aqueles que vão ficar pra sempre na nossa vida. Aqueles que vão ver nossa vida passar por várias fases, girar, dar muitas voltas, e vão continuar ali, pacientes, esperando o ciclo completo se encerrar pra dizer, que apesar dos altos e baixos que se passaram, o que importa foi o que cresceu com toda essa transformação: a amizade.
Porque amizades verdadeiras giram juntas na ciranda da vida.